I CONCURSO PETROBRAS CASABLOCO DE ARTES CARNAVALESCAS
Ela não molhou o pano da cuíca com as lágrimas, mas sim os pés por cada bolha estourada.
Não podia continuar daquela forma desfilando com sandálias emprestadas. As tiras faziam marcas nos tornozelos, bolhas nos calcanhares e mindinhos. As pernas já não a obedeciam e, as solas dos pés, dormentes. Precisava aguentar até o carnaval acabar e não era na quarta de cinzas.
Era passista e ser passista, para ela, era quesito. Atributo muito maior do que fazer pose na frente das câmeras, jogadas de pernas para o alto e ser motivo de cobiça pelo seu requebrar. Nascida e criada dentro do carnaval. O avô foi um dos fundadores da extinta GRES Acadêmicos da Pedra Branca. Atualmente, sua mãe e tia eram baianas de outras agremiações, sua avó pertencia à velha guarda da GRES Unidos do Jacarezinho e tinha como musa a saudosa Maria Lata D’Água. Cresceu entre restos de fantasias, separando lantejoulas, plumas gastas, retalhos de cetim, lamês e tafetás surrados… A vida na Avenida era tristeza e pé no chão.
Morava com a mãe numa casa pequena de dois quartos, alugada, no morro da Pedra Branca. Virava-se em mil para criar, com dignidade, o filho de três anos. Trabalhava num salão de beleza no mesmo morro onde morava como manicure. As duas dividiam tudo, das alegrias às tristezas. A mãe trabalhava como auxiliar de limpeza e aos finais de semana, quando sobrava algum, tomava uma cerveja com as comadres na birosca do Etevaldo. Tinham um cofrinho e todo mês, cada uma, colocava dois reais para no carnaval quebrá-lo. Poupança carnavalesca, pois só naquele período a vida dura de escala 6×1, muitas vezes, 6×0, poderia ser esquecida. A gorjeta que recebia, no salão, ficava para a poupança do pequeno. O menino era a joia daquelas duas mulheres. Enquanto trabalhavam, ele ficava na creche e depois na casa de uma vizinha que tomava conta dele e de mais três crianças, filhas de outras mães solteiras. Sonhava em ser passista do Grupo Especial, mas com a vida tão apertada de grana era impossível. Não era pra qualquer uma ser passista do Grupo Especial porque quando os ensaios começavam, logo após a escolha do samba, deveriam se apresentar com roupas distintas: uma para o ensaio de comunidade e outra para o ensaio show. As sandálias ou sapatos tinham as mesmas exigências. Além disso, a locomoção era por conta da passista. Somente a roupa do desfile e o calçado eram dados pela Escola. Algumas nem davam os calçados, as passistas tinham que fazer rateio para a compra e dependendo do carnavalesco, não saía barato. Até o cabelo tinha que ter “presença” nas passistas de Grupo Especial, não que as da série Ouro ou Prata, não tinham, mas era bem menos. Havia muita competitividade no meio das passistas. O jeito encontrado foi ser passista das escolas da Intendente Magalhães, pois, de certo modo, ainda mantinha a tradição. Poderia mostrar seu samba no pé e compartilhar com a mãe, o filho e a tia a sua alegria tão subtraída durante o ano.
Estava animada para o carnaval daquele ano. Pela primeira vez, seria musa, de uma escola da série Bronze. Sua roupa foi desenhada por um amigo vitrinista, também envolvido com carnaval que reutilizaria tecidos e adereços de suas fantasias dos anos anteriores. Continuaria sendo passista de outras agremiações, mas por quarenta minutos seria musa. Seu único dia de “folga” seria no Grupo de Avaliação ajudando vestir às baianas.
O grande dia chegara. Estourar as bolhas dos pés era necessário para aplicar o Band-Aid e conseguir calçar as sandálias emprestadas por uma amiga passista. Sandália de musa, toda cravejada de strass. O amigo ajudava a se vestir. A roupa tinha ficado linda. A maquiagem foi feita por uma colega do salão. Depois de colocada a roupa, foi o momento de colocar, na cabeça, a coroa estilizada feita de restos de arames pintados com spray dourado e coberta por de pedras coloridas artificiais. Como não tinha dinheiro para as penas sintéticas, optaram também de fazer “ombreiras” com os arames acompanhando o mesmo desenho da coroa. Seus braços e pernas foram cobertos por uma mistura de óleo de amêndoa e purpurina dourada. Seu amigo soube usar muito bem os restos dos tecidos para fazer sua fantasia. Na concentração, muitas pessoas pediram para tirar fotos e isso é sinal de que a fantasia tinha “dado certo”. O público sempre foi e sempre será o termômetro. Lembrou do seu avô e de toda sua herança carnavalesca. Sabia que sua mãe, seu filho, sua tia e sua avó estavam na arquibancada em frente ao primeiro módulo dos jurados. Deu vontade de chorar, mas segurou para não borrar a maquiagem. O último apito soou. Começou o esquenta. Sentia nas veias a marcação do surdo. Começou a sambar o seu samba de Maria Lata D’Água. Aplausos e gritos se misturavam ao som da bateria.
No primeiro módulo mandou beijo para os seus e sambou mais do que nunca. Sorriu largo ao ver o filho, conteve as lágrimas novamente. A mãe gritou:
-Vai filha, manter a tradição!
Antes de pisar na linha final ouviu um estrondo e um apito fino no ouvido. Pôs a mão na barriga e quando olhou as mãos viu sangue. Quando olhou era seu ex sendo segurado pelos seguranças da Liga. A medida protetiva tinha falhado. Caiu no chão de lado. O salto da sandália quebrou com a queda, mas a coroa permaneceu intacta. Ouvia gritos. Seus olhos estavam semiabertos quando viu ao longe as luzes da ambulância em meio à correria.
A sua hora de estrela não poderia ser aquela!
LUZIA ROCHA é Graduada em Letras e Especialista em Literatura Brasileira (UERJ). Suburbana. Amante do carnaval, desfilou por mais de dez anos em diferentes Escolas de Samba tanto as do Grupo Especial quanto as das demais séries. Criadora da página no Instagram LitteraeLux. É coautora do livro 37 Escritoras Neolatinas Contemporâneas (Revista Philos) e participou, também, como coautora, de diversas antologias. Sua escola do coração é a que carrega na sua bandeira o amarelo ouro e do azul pavão: GRES Unidos da Tijuca.
A pintura que acompanha o conto é de BEA MACHADO (Rio de Janeiro, 1992), artista plástica nascida e criada em Bangu. Seu trabalho se debruça sobre o subúrbio carioca, o ser suburbano e a sua relação com a cidade e os símbolos que contam suas histórias. Na série “Altares, festas e fé”, ainda em desenvolvimento, a artista retrata mulheres que contribuíram para a história do samba e, consequentemente, para a história do Rio de Janeiro. Fabula altares com suas imagens e fatos importantes das suas histórias. Já participou de exposições coletivas no Museu de Arte do Rio, Paço Imperial, Centro Cultural dos Correios e Sesc Vila Mariana (SP). Em 2024 entrou para a coleção do Museu de Arte do Rio com a obra “O subúrbio é dentro da gente”, bandeira desenvolvida para o desfile da escola de Samba Acadêmicos do Grande Rio para o carnaval de 2023. Neste mesmo carnaval, seu trabalho foi inspiração para a 5ª ala desta Escola, chamada de “Chão de criança”. No campo da literatura, seu quadro “‘O museu do pobre é a parede de casa’ – frase de Tia Dodô” foi capa do último livro de Luiz Rufino, Cazuá: onde o encanto faz morada, lançado pelo grupo editorial Record. Em 2025, a artista volta para Sapucaí com trabalhos inéditos e especialmente desenvolvidos para a Portela e para o Império Serrano.